terça-feira, 5 de abril de 2011

“Trecho” do livro Ideologia e Currículo de Michael Apple:

Hoje compartilho um trecho do livro de Michael Apple para nossa reflexão-ação-reflexão….

 

(...) Sobre um de meus alunos, um menino sensível, mas às vezes perturbado, chamado Joseph. Quero contá-la de novo aqui, pois fala de muitas das razões pelas quais Ideologia e Currículo tomou a forma que tem e por que motivo enfatiza o poder diferencial e o papel que a educação desempenha em sua legitimação. Aqui está a história:

Joseph soluçava em minha mesa. Era um menino durão, um caso difícil, alguém que sempre tornava difícil a vida de seus professores. Já tinha bem uns 9 anos, mas aqui estava ele, soluçando e se abraçando a mim em público. Joseph estivera na minha turma da quarta série o ano inteiro, numa sala de aula de um prédio decadente de uma cidade que estava entre as mais empobrecidas do país na costa leste dos Estados Unidos. Havia momentos em que eu seriamente me perguntava se conseguiria acabar aquele ano. Havia muitos Josephs naquela turma, e eu constantemente me sentia esgotado pelas exigências, pelas regras burocráticas, pelas lições diárias que os alunos proporcionavam em profusão. Ainda, assim, era algo satisfatório, instigante e importante, muito embora o currículo recomendado e os livros que o acompanhavam deixassem muito a desejar. Eram livros tediosos para os alunos, e também para mim.

Eu deveria ter percebido já no primeiro dia o que iria acontecer quando li as sugestões do município para os primeiros dias de aula: começavam com uma sugestão para que, como “professor novo”, devesse pedir aos alunos que fizessem um círculo com suas mesas e se apresentassem uns aos outros, falando um pouco de si próprios. Não que eu fosse contra essa atividade; apenas não dispunha de mesas ( ou mesmo cadeiras) inteiras o suficiente para todos os alunos. Alguns dos alunos não tinham onde sentar. Essa foi a primeira lição que tive – mas, com certeza, não a última – para aprender que o currículo e as pessoas que o planejam viviam em um mundo irreal, um mundo fundamentalmente desconectado da minha vida com aquelas crianças, em uma sala de aula localizada em uma região urbana, central e decadente.

Mas ali estava Joseph. Ainda chorando. Eu trabalhara muito com ele durante o ano. Almoçamos juntos; lemos histórias; passamos a nos conhecer. Havia momentos em que ele fazia com que me desesperasse e havia momentos em que ele estava entre as crianças mais sensíveis de minha turma. Não tinha como abandonar esse menino à própria sorte. Joseph , agora, acaba de receber seu boletim de desempenho, o qual diz que terá de repetir a 4ª série. O sistema escolar tem uma política segundo a qual a reprovação em duas disciplinas quaisquer (incluindo o aspecto comportamental) determina que o aluno refaça aquela série. Joseph foi reprovado em educação física e em aritmética. Embora demonstrasse melhoras, ele não conseguia manter-se acordado durante as aulas de aritmética – obtendo um resultado insatisfatório nos exames municipais – e odiava educação física. Sua mãe trabalhava em horário noturno, e Joseph, em geral, ficava acordado, na esperança de passar mais tempo com ela. As coisas que pediam para os alunos fazer nas aulas de educação física eram, para ele, “idiotas”.

O fato é que o menino havia melhorado bastante naquele ano, mas me recomendaram reprová-lo. Eu sabia que as coisas piorariam no próximo ano. Não teríamos também o número suficiente de mesas. A pobreza daquela comunidade ainda continuaria a ser horrível; os planos de saúde e os fundos para treinamento profissional e outros serviços seria diminuídos. Eu sabia que os empregos disponíveis nessa antiga cidade operária pagavam salários deploráveis, e que, mesmo com o pai e a mãe trabalhando, a renda da família de Joseph era insuficiente. Também sabia que, dão o que eu já havia feito durante todos os dias pela turma e às noites, preparando as aulas para o dia seguinte, seria praticamente impossível de trabalhar mais do que já trabalhara com Joseph. E havia mais cinco crianças no grupo que eu deveria reprovar.

Então Joseph soluçava. Ambos sabíamos o que isso significava. Eu não receberia – e nem as crianças como Joseph – nenhuma ajuda adicional no ano seguinte. As promessas continuariam a ser simplesmente retóricas. Os problemas seriam enfrentados somente com palavras. Os professores e os pais seriam os culpados. Todavia o sistema escolar pareceria manter-se como algo que sempre buscasse atingir padrões mais altos, e a estruturação do poder econômico e político daquela comunidade e do Estado continuariam “de vento em popa”.

No ano seguinte, Joseph simplesmente desistiu. A última informação que tive dele foi a de que estava na cadeia.

APPLE, Michael W.Ideologia e currículo, tradução Vinicius Figueira. 3. Ed. – Porto Alegre: Artmed,2006

2 comentários:

  1. Realmente que faz o cueeiculo não faz idéia da realidade das escolas...
    Lamentável

    ResponderExcluir
  2. Nossa realidade é bem diferente do que nos é passado. vivemos e sobrevivemos em salas de aula muitas vezes sem condições nenhuma, mais somos mais que vencedores, somos mágicos, somos campeões, porque mesmo com toda dificuldade conseguimos ainda formar cidadãos decentes, pois muitos de nós trabalhamos com amor, e é isso que também está faltando em outros educadores (amor ao que faz.
    Gostaria se possivel fosse me enviar algumas partes do livro Ideologia e currículo pois tenho uma semana para lê-lo e não estou encontrando na internet para baixar.
    laurangelica@ig.com.br
    Obrigada desde já
    Laura

    ResponderExcluir

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